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A economia às fatias no jogo do monopólio tecnocrata

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.05.08

Nestas alturas tenho pena de não ser economista, de não ter conhecimentos mais técnicos, científicos.

Esta ideia tecnocrata de uma economia de jogo de monopólio, que vemos na Europa e no país, tem da Europa e de cada país planos bem definidos.

Para estes iluminados, a riqueza não dá para todos. Entendem? É uma ideia que eles aceitam à partida, é uma premissa, uma condição prévia. E sem pestanejar.

Não há cá pruridos de distribuição de riqueza. Salve-se quem puder neste mercado global. Para eles, isto é claro, claríssimo como água.

E não é só com os cidadãos, as empresas, os negócios, etc., é assim também com os países. A Europa ficará, assim, dividida em fatias: países ricos, países remediados e países pobres. Adivinhem onde iremos ficar…?

Acertaram. E duplamente culpabilizados, porque também aí os tecnocratas são exímios: seremos pobres porque somos incompetentes, preguiçosos, ignorantes, com necessidades específicas de formação, etc., etc.

Para eles, esta inevitabilidade histórica é o seu melhor alibi. Porque nunca lhes passará pela cabeça fazer uma auto-avaliação. Isso é para os professores, claro! E se lhes exigíssemos uma auto-avaliação em que um dos itens seja, tal como é para os professores, os resultados concretos da sua gestão?

Mas o que ninguém poderá negar, o nosso melhor argumento perante os alibis tecnocratas, é: os portucalenses lá fora (e não vamos mais longe fiquemos já aqui, no Luxemburgo, por exemplo…) têm outros níveis de produtividade (medido pelo PIB per capita). E o que é que os diferencia? A gestão das empresas no Luxemburgo e o vencimento atractivo ao fim do mês, isto é, uma gestão adequada e o reconhecimento, que promove a auto-estima e auto-confiança. Lá, o trabalho é simplesmente valorizado. Aqui, é-se duplamente penalizado: mal gerido e mal pago.

Não será, pois, difícil perceber onde se posiciona, nessa lógica tecnocrata, o nosso país, aquele West Coast of Europe de Manuel Pinho. Para uns serem ricos outros terão de ser pobres. Foi, aliás, como mal pagos que nos tentou impingir à China. E logo a China… E lá se mantém ele, incólume, na pasta da Economia… Pois bem, em que carruagem nos coloca Manuel Pinho? Segundo desconfio, ficaremos pior instalados do que na carruagem de 2ª, aquela em que eu pensava que íamos….

Desconfio mesmo que vamos ficar na carruagem das bagagens, porque nos hão-de inventar uma. Connosco, irão as espécies ameaçadas também, uma espécie de jardim zoológico para europeus em férias. Isto é, não tardará muito os portucalenses distraídos viverão fora da cerca de uma grande reserva ecológica para ricos, uma espécie de jardim, digamos assim… Para lá da cerca, bem ao lado, e escondido dos olhares esteticamente sensíveis dos europeus de 1ª… um outro país, de amontoados de prédios de construção barata e barracas (as 27.000 actuais e sabe-se lá mais quantas…) Quanto aos 10% de portucalenses ricos viverão em condomínios (como aliás previu Fernando Nobre, escandalizado…)

E no entanto… não é preciso ser um prémio Nobel para perceber que há alternativas mais inteligentes de gerir os recursos humanos e financeiros.

Só que nessa nova economia não cabem os tecnocratas, não são compatíveis, compreendem? E não apenas os tecnocratas, os tais que defendem interesses e grandes negócios, os lobis do costume… também os próprios interesses e grandes negócios terão de se reciclar, readaptar, ou ir explorar outro planeta (Marte, por exemplo).

A ganância não é apenas um atentado à humanidade (ex.: companhias petrolíferas; tráfico de armas; tráfico de pessoas e agora, de escravos; monopólios disto e daquilo, etc. etc.), é também o maior obstáculo à própria viabilidade da humanidade no seu todo, logo, um atentado à própria sobrevivência da espécie humana.

A economia terá de ser encarada numa lógica completamente diferente: uma nova economia implica uma inteligência colectiva. Uma capacidade analógica e não selectiva, às fatias. Sim, é aqui que eu adorava ter conhecimentos de macro-economia… porque me parece viável, sabem?

 

publicado às 15:52

E os que emigraram, não contam?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.05.08

No debate quinzenal parlamentar, 4ª feira dia 21, ouvi o impensável: que o desemprego está a diminuir em Portugal.

E o emprego precário? (A começar pelo próprio Estado, a recibos verdes! Quando o próprio Estado explora os cidadãos mais vulneráveis, o que se pode esperar dos privados?)

E os que saltaram das estatísticas porque passaram de desempregados para inactivos?

E quanto aos que desistiram de esperar e emigraram, onde ficam nas estatísticas? Quem vai fazer as estatísticas dos que emigraram? Quem tem acesso a elas? (Seria interessante sinalizar esses cidadãos, para ver a dimensão do problema. Ou só interessa sinalizar manifestantes em protesto, contribuintes em falta, etc.? É inútil tentar camuflar a realidade, primeiro negando-a, depois dando-lhe a volta com as estatísticas.)

Sim, onde ficam os que emigraram? Não contam? Não são portugueses? Como não contam nas estatísticas, deixaram de existir? Deixaram de contar para o país? E sobretudo, para os responsáveis políticos?

É fundamental para o país determinar os números reais do desemprego e clarificar, de uma vez por todas, porque é que as estatísticas do INE, do EUROSTAT e do ministério do Emprego e Segurança Social nunca coincidem. Vieira da Silva terá de ser confrontado, mais dia menos dia, com os números reais.

Nem sei se deva referir aqui a minha perplexidade ao ouvir o primeiro-ministro, o mesmo que só dava boas notícias, anúncios de anúncios de anúncios, para um país das maravilhas, de sucessos sobre sucessos, debitar, com o maior descaramento possível, frases como estas:

Quem não aguenta más notícias, náo aguenta boas notícias. (!)

Este governo filia-se numa Esquerda (?)… Consciência social… (?) Há gente que sofre… (!) … há gente com dificuldades… (!)

E claro que a culpa é:

Da conjuntura internacional (!)

E também:

Das dívidas que os senhores deixaram (!)

A frase do dia:

Não é justo para o governo ter sido apanhado pela crise internacional (???)

A gaffe do dia (em relação à suspeita de cartelização dos preços nas pretolíferas em Portugal):

O governo encomendou… (?)...  perdão, pediu... um Relatório à Autoridade da Concorrênciacom carácter de urgência… (???)

E ainda:

Não se pode falar em  cartelização, porque como sabem isso é crime (!!!)

(...)

 

publicado às 15:41

As oportunidades reais das mulheres portuguesas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.05.08

Ao olharmos para esta realidade dos despedimentos colectivos de mulheres, voltamos sempre à questão essencial, da sua autonomia financeira. Das suas oportunidades reais, concretas, de se afirmar socialmente. Motivação não lhes falta, até pela forte adesão ao programa “Novas Oportunidades”.

Aliás, na sua magnífica crónica no Público, dia 3, Pacheco Pereira refere a importância do programa: “… A trabalhadora da Yasaki Saltano [em Gaia, onde esta semana se verificaram despedimentos colectivos], que disse que ia aproveitar a ‘oportunidade’ para completar o 12º ano tem toda a razão e aponta o caminho, mas nem por isso deixa de ter todas as dificuldades e não é certo que possa vir a utilizar as suas novas qualificações.”

A situação destas mulheres tem sido para mim uma espécie de instrumento de medição da viabilidade do país nos próximos tempos. Porque este é um país que dispensa sem pestanejar os seus recursos humanos, a sua energia, a sua genica. E estas mulheres têm isso tudo, capacidades e motivação.

As “Novas Oportunidades” só têm sentido (embora se reconheça o seu valor intrínseco, na equivalência a graus de ensino e a qualificações profissionais), se corresponderem a oportunidades reais, concretas, de voltar ao activo, ao mercado de trabalho.

É certo que a crónica de Pacheco Pereira me fascinou também porque os meus modelos, as minhas heroínas, nunca foram as que me colocaram desde cedo à minha frente: as intelectuais, as científicas,  as líderes, as artísticas.

Admiro-as, inequivocamente, como referências intelectuais ou científicas, mas a minha bússola interior, as minhas afinidades ou cumplicidades, viraram-se precisamente para as concretizadoras: ágeis, despachadas, inteligentes, afectivas, resistentes, e em tudo saudáveis, desde a voz cantante ao riso pronto. Características que vi e apreciei nas mulheres beirãs da minha infância. (1)

Agora, olhando para trás, surpreendo-me que não fossem valorizadas como mereciam, mas apesar de tudo, nessa sociedade um pouco fechada, eram valorizadas de um modo mais saudável do que o que vejo actualmente. Eram respeitadas. Afirmavam-se socialmente pelas suas competências. E duvido que lá em casa houvesse marido algum, por mais irascível que fosse, que se atrevesse a enfrentá-las. Parece-me até que eram respeitadas pelos maridos. Pelo menos eram elas que geriam a colecta familiar.

Por isso também me fascinou tanto a crónica de Pacheco Pereira! Por dar visibilidade a mulheres que, se tivessem as oportunidades que foram dadas a outras mulheres, e que são sobretudo dadas aos homens, o que não conseguiriam concretizar! Até onde não conseguiriam ir e participar activamente na construção de um país digno desse nome! (2)

A começar pelo acesso, de forma realmente igualitária, a um ensino de qualidade, a uma qualificação profissional, a uma valorização do seu desempenho (vencimento equiparado ao dos homens para funções e resultados idênticos).

E por isso me viro para uma nova geração, a que Maria José Nogueira Pinto designou de um novo homem e de uma nova mulher, uma ruptura cultural.

Aposto que nesse novo mundo cultural estas mulheres terão um lugar e uma função, uma oportunidade real e concreta. Aposto que esta nova mentalidade não irá desperdiçar nada, a energia, motivação, genica, agilidade e inteligência prática, numa palavra, a capacidade de concretização destas mulheres. Aposto até que irá olhar para os recursos humanos do país com um novo olhar, com olhos de ver, em vez de se iludir papalvamente com construções fictícias à Estado Novo: os dez estádios de futebol (às moscas); a mega-barragem do Alqueva (para os nuestros hermanos); o TGV (?); a 3ª ponte no Tejo (!); e o que aí se arquitecta já para a zona ribeirinha lisboeta, (…) etc, etc.

(1) Lembram-se de ver num telejornal, há uns tempos atrás, uma referência a uma mulher portuguesa à frente de uma comarca de uma pequena comunidade, não sei que designação lhe dão, nos Estados Unidos? E outra, esta inequivocamnte beirã, pelos traços e pronúncia, candidata pelos socialistas em França, a uma presidência de câmara de uma das secções de Paris, ao lado da Segolène Royal? É destas mulheres que eu estou a falar. Acham que em Portugal a sua consistência e qualidades seriam valorizadas? Acham que em Portugal lhes seriam dadas estas oportunidades?

(2) É certo que algumas destas mulheres ainda conseguiram tornar-se empresárias, com sucesso. E muitas outras também poderiam criar um negócio próprio. O micro-crédito também pode abrir algumas oportunidades. Mas é preciso que a economia arranque… e com esta visão actual, estas politicas… não estou a ver condições de sobrevivência para os pequenos negócios… Mas temos aqui também muitas potenciais colaboradoras activas em associações várias, de intervenção cívica ou de apoio social. E aqui tenho de referir Paulo Portas, o único político a lembrar-se delas e da sua inestimável colaboração nestas áreas sociais. Mas também temos aqui potenciais presidentes de junta de freguesia ou de câmaras municipais, porque não? E muitas outras funções que não me ocorrem agora.

 

publicado às 18:03

A vida das mulheres num país essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.05.08

Já há muito tempo que andava a pensar num texto dedicado às mulheres deste estranho país, considerando o referido país essencialmente masculino, a começar pelo seu nome, Portugal, que lembra um porto e um galo (já España é feminina, a lembrar-nos campos ondeados de pastagens amarelas)...

… e que até no seu hino é um país masculino, lá vêm as armas e os canhões, tudo áreas tradicionalmente masculinas (embora me despertem sempre um sorriso quando me lembro da padeira de Aljubarrota e da Maria da Fonte)…

… um pais mais belicoso que bélico, mais mal-humorado que alegre, um país em que os homens mandam e as mulheres os idolatram (e em que esta dominância masculina é perpetuada pelas mulheres e logo no início, como mães)…  

… quando fui surpreendida por uma crónica de Pacheco Pereira no Público, sábado, dia 3!

Como é possível, pensei eu, que seja precisamente um homem, e português ainda por cima, a surgir com o texto mais magnífico que já li sobre as mulheres portuguesas, as mulheres reais, concretas!

É que este olhar tão próximo da realidade e da vida concreta das mulheres, tenho-o visto essencialmente nos escritores anglo-saxónicos ou francófonos. Os homens ibéricos, salvo raras excepções, têm um olhar muito mais distraído e negligente.

As mulheres de que Pacheco Pereira aqui fala são precisamente aquelas de que eu gostaria de falar, as mulheres que sempre me fascinaram desde a infância, as que davam sempre conta do recado, as que faziam tudo com mãos despachadas e eficazes, as que queriam era ter o serviço feito e tudo pronto, e nunca se queixavam, e eram uma companhia sempre agradável porque tinham sempre a cantiga fácil e o riso franco…

Passados tantos anos vejo, com perplexidade e revolta, que estas mulheres continuam invisíveis, a democracia não lhes deu qualquer visibilidade… e no entanto… são elas que seguram as pontas de uma situação-limite, de uma economia liofilizada, de uma fragilidade social. Também são as mesmas que, pelo mesmo trabalho e a mesma eficiência, vêem o seu trabalho desvalorizado em relação aos homens, isto é, o seu vencimento é, em média, uns pontos abaixo (!).

Foi por isso que, quando peguei na crónica de Pacheco Pereira, este quase roteiro de documentário pensado por um homem português, com uma visão que ultrapassa o olhar distraído dos homens, fiquei fascinada, pois esta é, sem dúvida, a melhor forma possível de dar, a estas mulheres, a visibilidade e o reconhecimento que o país não lhes dá nem sabe dar.

Pacheco Pereira recorda um tempo em que, voluntarista político, ia “distribuir uns papéis à saída das fábricas”. Aqui refere uma “grande fábrica desaparecida, a Clark’s de Castelo de Paiva”: “… a Clark’s era um sítio péssimo para o fazer. A saída era espectacular, mas muito, muito, rápida. Nos breves momentos que durava, um mar de raparigas, mulheres jovens e na meia-idade, o maior número de gaspeadeiras que alguma vez vi na vida, saía como uma mola das portas interiores e corria, literalmente corria, para os portões e desaparecia pelas ruas e caminhos, em motocicletas, algumas em carros. Dez minutos depois, não havia ninguém e os papéis dados à pressa no meio daquelas almas fugidias desapareciam com elas tão depressa como a noite se punha.”

E segue-lhes o rasto de vidas a correr: “… iam para casa o mais cedo possível cuidar dos filhos e do marido, cuidar da casa, não tinham tempo a perder com políticas. Como na Yasaki Saltano [em Gaia, onde esta semana se verificaram despedimentos colectivos], a maioria dos trabalhadores são trabalhadoras, mulheres, muitas bastante jovens, muitas com poucas qualificações e que abandonaram a escola antes do tempo, a face visível do ‘insucesso’ e do ‘abandono escolar’, para irem trabalhar e constituir família numa idade em que os mais abastados ainda se arrastam pelo 12º ano ou pelos primeiros anos da universidade e vivem em casa dos pais. A atracção do emprego e da família, da ‘sua’ família, marido e filhos, não é apenas motivada pela necessidade económica, mas sim pela procura de autonomia, de uma vida própria na teia demasiado densa das famílias ainda próximas da ruralidade. Castelo de Paiva não é propriamente o centro do mundo urbano e Gaia ainda tem muitas aldeias.”

E é aqui que Pacheco Pereira observa o impacto do desemprego: “O desemprego é devastador para todos, mas é-o mais para estas mulheres jovens e de meia-idade. Não é apenas a sua condição económica, a sua condição de vida que é afectada, é também a sua autonomia como mulheres, a sua capacidade de terem no salário e no emprego uma vida e uma dignidade próprias como mulheres, num mundo em que esta afirmação ainda é crucial. Recebida a notificação do desemprego, passado o período da agitação, as notícias e contranotícias de que pode haver um plano de integração na fábrica ao lado, ou a cinquenta quilómetros dali, que pode haver um supermercado que as aceite prioritariamente, que a câmara vai cuidar delas, que os sindicatos vão obter uma melhor indemnização, etc., etc., chega uma altura em que acabou. Acabou mesmo, está desempregada.”

“Nesse momento, em que o dinheiro que se levava para casa começa a faltar, a mulher começa a fazer contas e a cortar nas despesas. E não corta no pão, no infantário, na luz, na casa, no telemóvel – há-de vir a cortar – corta nas suas despesas, nas despesas consigo. Vai menos vezes ao cabeleireiro, arranja-se menos, compra menos roupa, tudo coisas que parecem fúteis para quem tem tudo, mas que representam um caminho para uma menor auto-estima, um desleixo que pode vir a crescer com os anos, se passar definitivamente de operária a dona de casa. É um caminho invisível, um passo atrás em que ninguém repara a não ser as próprias.”

“Elas sabem o que é não ter emprego, ou ter que mudar para outro emprego menos qualificado, mais solitário, mais dependente, socialmente menos reconhecido. Elas sabem que podem fazer menos coisas sozinhas, com o seu dinheiro, sem prestar contas a ninguém. Elas sabem o que significa ficar mais dependentes do marido ou dos pais, ter menos esperança para os filhos, desistir de coisas que achava até então possíveis: umas férias baratas no Algarve, um carro melhor, mais visitas às lojas do Arrábida Shopping, não para ver as montras, mas para entrar lá dentro e comprar aquela roupa para o ‘bébé’, ou aquela blusa. E sabem que saem menos e vêem mais televisão.”

Entretanto Pacheco Pereira passa, em vôo raso, sobre as principais ideias actuais, economicistas, sobre o desemprego, e que tentam justificá-lo, mas o que importa aqui registar é o seu apelo, a todos nós, como cidadãos deste estranho país:

“Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.”

 

publicado às 16:36

E a espécie portucalense, será viável?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.05.08

Este país às vezes lembra-me uma maquete de brincar para jogadores sem qualquer noção do que é um país real. Um jogo de monopólio para mentes gananciosas, em que se distribuem as cartas sem querer saber das consequências finais do jogo: um país que não conta com a sua própria espécie.

Um país de linces ibéricos, mas onde os autóctones não se podem manter porque o habitat já não é seguro para os seus habitantes: sem escolas, sem correios, sem centros de saúde, sem postos da GNR… Lá está, a tal maquete, o tal jogo de monopólio! Alguém os terá já vislumbrado a jogar? Gostava de saber que mais avarias nos vão preparar estes jogadores…

Em breve, até a nossa língua, de construção complexa, com uma lógica intrínseca, de toda uma cultura e história, só nos será acessível em gravações de museu: os seus exíguos vestígios.

A quem poderá interessar a perda progressiva de identidade de uma comunidade? A sua especificidade cultural e histórica, na sua língua viva? É que não é apenas instrumento de comunicação, é instrumento do raciocínio, da capacidade de pensar. A quem poderá interessar esta perda progressiva da nossa especificidade, para um linguajar simplificado e uniforme? Só mesmo a visão economicista de uma economia global.

Aliás, é esta ideia que vejo expressa no magnífico texto “Em Defesa da língua portuguesa”, no Público do dia 3, de que se destacou a seguinte frase: “Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa”. Este texto está assinado por um grupo bem heterogéneo de personalidades, de uma forma ou outra envolvidas na cultura do país, e pode ser subscrito na Internet em:

Para aceder à petição correcta, por favor, vão pelo Google que é mais seguro. Busca: petição em defesa da língua portuguesa + contra o acordo ortográfico. Tentei várias vezes colocar a morada correcta e desviou-me sempre para outro local. Fui alertada por uma amável viajante que por aqui passou. Agradeço-lhe imenso e aqui fica o meu pedido de desculpas por vos ter desencaminhado. O que é que andámos a peticionar, afinal?

De qualquer modo, vou tentar de novo:

http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa/

Porque é disto que se trata. A própria erosão da língua, com as consequências que arrasta e “desprezando o valor da História”. O texto alerta ainda para: “o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado), e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra)”, e para o facto de “o Acordo Ortográfico pretender impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura.” E “lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do prof. Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica.”

A única mais-valia que nós temos é precisamente a nossa especificidade,a nossa identidade. Tirem-nos isso e desvalorizam-nos, como espécie portucalense cultural e histórica, a extinguir. E para quê? Para, erradamente, nos venderem como língua universal. Hoje, tem muito mais lógica e revela uma inteligência muito mais abrangente, respeitar especificidades do que querer uniformizar por interesses economicistas.

E isto é apenas a primeira amolgadela na língua, insidiosa, subreptícia, com argumentos simplistas e chantagistas, que a língua é uma coisa viva… que já houve “mái” com i… que se estivéssemos na mesma ainda escrevíamos “pharmácia” com ph… que temos de nos aproximar do Brasil e de África… e que… e este é o mais forte!, para eles, claro!, já somos não sei quantos milhões de falantes no mundo! Ena! Os tecnocratas vêem tudo em quantidade… milhões…

O que os tecnocratas querem é consumidores, de qualquer coisa. É assim que vêem as pessoas, como consumidores obedientes. O que mais abominam, já o disse aqui, é a capacidade de pensar de forma autónoma. Na sua lógica, é tudo claríssimo. Uniformizar e formatar, para consumir, massivamente. Esta varridela linguística é o primeiro passo da erosão sistemática da nossa cultura e especificidade histórica, porque a própria língua, a sua construção e depois a sua utilização correcta, já traz em si toda a nossa cultura e a nossa especificidade histórica.

Puxemos das brumas da memória: nove séculos de existência, muita capacidade de resistência, muita genica e sentido de independência, muita ousadia e loucura, muita malandrice e manhosice também, mas sobretudo… uma costela profundamente autónoma. E foi assim durante séculos! Onde é que nos começámos a desviar para a cobardia, a preguiça, a dependência, o conformismo? Onde? Terá sido quando nos começámos a habituar às riquezas das colónias de além-mar? A eterna história da ganância, onde terá desembocado a aventura original? Ó glória de mandar, ó vã cobiça…? (E já no tempo de Camões…)

Ainda mantemos os terríveis traços desse desvio. E apre que está a ser difícil acordar, na nossa memória, todos esses genes antigos e activá-los de novo! Onde estão os melhores de nós? Os que ainda têm alma, ânimo, genica e muita engenhosidade?

Enquanto busco vestígios da nossa espécie, vou dando uma vista de olhos pelos fabulosos livros de História que têm saído ultimamente. A ver se percebo melhor a tal curva que nos afastou das nossas raízes genéticas. Ou descobrir que também a nossa espécie, o portucalense, já se extinguiu, antes mesmo do seu habitat natural…

 

publicado às 16:20

Vi vários documentários de biólogos ou zoólogos obcecados com os vestígios do lince ibérico. A tentar interpretar os vestígios (excrementos) pelos montes do interior algarvio. Talvez o mesmo tenham feito na serra da Malcata, mas esses documentários passaram-me ao lado…

Parece que os referidos vestígios (os tais exíguos excrementos) eram de cabra ou de lebre, mas os referidos biólogos ou zoólogos lá se mantinham na senda do lince ibérico. A meu ver, o lince ibérico já estava completamente ausente em Portugal e já há um certo tempo. Mantém-se em Doñana, mas é criado em cativeiro, segundo percebi noutro documentário.

Li num artigo do Público, dia 2, que “… as acções de conservação do lince ganharam um novo impulso”, “… por causa da barragem de Odelouca, no Algarve, que destrói parte do habitat natural desta espécie…” Mas não percebi bem se foi uma exigência de Bruxelas ou se apenas correspondeu favoravelmente à vontade dos ambientalistas voluntaristas: “Por causa das medidas de compensação exigidas por Bruxelas, será construído, em Silves, o Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico.”

No entanto, mantenho a minha, seria interessante proteger a espécie, se ainda por aqui andasse, mas “… ninguém mete a mão no fogo que ainda se passeie por Portugal”. Esta obsessão por repovoar uma parte do interior do país, artificialmente, de linces ibéricos… ultrapassa-me completamente. E arrisco-me a dizer que é uma magnífica metáfora para o país que temos actualmente.

É que também a espécie portucalense, a sua cultura, a sua história, a sua língua, tudo isso em breve só será percebido em exíguos vestígios: casas restauradas. Já repararam que qualquer dia também terão de pensar a sério em repovoar o interior do país, mas já não haverá portucalenses nem os seus vestígios? Que, além de casas restauradas, da espécie portucalense apenas teremos vestígios em bibliotecas, museus e palacetes?

Continuando a seguir o artigo do Público: o investimento total ainda não foi calculado, mas “sabe-se que o centro de reprodução e as medidas de recuperação do habitat em Odelouca custarão entre quatro a cinco milhões de euros” com “… apoios comunitários, tanto da Agricultura [a mesma que não paga a tempo aos agricultores] como do Ambiente e do Desenvolvimento Regional [há um organismo com este nome?, não sabia…], e também do sector privado.”

Sim, esta é mesmo uma das nossas prioridades. Repor no país uma espécie há muito desaparecida… A isto já nem chamo obsessão ambientalista (que também não incluem pessoas na equação, já repararam?, o que não os distingue muito dos tecnocratas…), é uma alucinação. Se o Estado correspondesse a um país em boa forma económica… ainda vá que não vá… mas no nosso estado actual… É que esta operação pode implicar expropriações, imagine-se! (No caso dos proprietários não quererem colaborar?). Não sei porquê, isto lembra-me a Disneyland à portuguesa… já nem podemos falar de um país a sério!E vejam só a ironia: “Com a ajuda de Espanha, Portugal joga agora o tudo ou nada. Para que a Ibéria não perca para sempre um dos seus mais antigos habitantes.”

Um capricho e mais uma ilusão: o bichinho extinguiu-se no país mesmo antes do seu habitat natural, o matagal mediterrânico. Agora irão repor também essa espécie botânica, mesmo que tenham de expropriar… assim como a espécie animal comestível, o coelho-bravo… (aliás, segundo o mesmo artigo no Público, até já há uma “Comissão Permanente de Recuparação das Populações do Coelho-Bravo”, e já foi “criada em 2007”)

Esta estranheza foi a minha primeira reacção. Mas depois… bem, depois pensei no bichinho esquivo, de sobrevivência tão incerta… e nos biólogos e zoólogos que pacientemente procuraram pelas serras algarvias e da Malcata, os exíguos vestígios (os tais excrementos)... sem sucesso… e de certo modo identifiquei-me com eles…

Que outra coisa afinal tenho eu feito senão procurar os vestígios de um país sonhado… que já não vislumbro em lado nenhum? Não será também uma ilusão, uma alucinação? Não ando eu igualmente à procura de vestígios culturais de uma civilização perdida nas brumas da memória, provavelmente extinta, e quem sabe, mesmo antes de eu ter nascido?Vestígios como a sua língua magnífica, com uma construção lógica e complexa, e sonoridade elegante e musical? Vestígios como a sua poesia, os seus textos históricos, relatos de aventuras e peças satíricas? Vestígios como os seus valores comunitários, que permitiram a sobrevivência da espécie? Vestígios como a sua noção muito forte, genética, de rebeldia e autonomia?

É por tudo isto que fui baixando o nível de expectativas em relação ao actual poder político. Agora já só espero… e já que estão com as mãos na massa… que comecem a repor o que já destruíram, o nosso habitat natural, próprio da nossa espécie, o portucalense. Se são mesmo ambientalistas voluntaristas, que vejam lá então se deixam o país como estava antes de começarem a: liofilizá-lo, esmifrá-lo, empobrecê-lo, desvalorizá-lo, descaracterizá-lo, desertificá-lo e fatiá-lo… enfim… repor o nosso habitat natural.

 

publicado às 16:05


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